O NATAL DE DONA SILÂNDIA

Para quem acompanhou, através da página no Youtube ou do Canal Universitário, as reportagens e os programas feitos para a TV Mackenzie: ontem foi o último dia de trabalho na TV. Deixei a redação, como fazia todos os dias, tomei, na Rua da Consolação, o primeiro ônibus que me deixasse na Avenida Paulista. Dessa vez não li nada, como habitualmente. Deixei que a mente me levasse a qualquer pensamento, mas caía sempre na própria TV Mackenzie: era o último dia de quase dois anos.

Ao meu lado, uma senhora que aparentava seus 50 e poucos anos. Os cabelos, enrolados, formando um coque, estavam presos atrás da cabeça; pelo volume, eram bem compridos. Ela respirava meio sufocada dentro de uma blusa preta feita de um tecido feminino e uma saia jeans surrada que terminava, com aquela barra meio desfiada, um palmo e meio abaixo dos joelhos. Seu tamanho enchia a poltrona do ônibus. Os sapatos, num preto meio desbotado, deixavam à mostra o comecinho do peito dos pés. Quando já estávamos na Avenida Paulista, ouço a senhora reclamar de qualquer coisa por entre os dentes.

– Ahn? – pergunto eu.
– Dor na coluna. Tô com uma dor na coluna – diz ela fazendo alguma careta.

Como estava pensativo apenas dei de ombros e, depois de alguns segundos, apenas ofereci para trocarmos de poltrona, já que a minha permitiria a ela esticar melhor as pernas. Ganhei um sorriso, mas a senhora recusou:

– Não é o banco, não. É uma injeção que eu tomei.

Meti-me comigo mesmo e continuei pensando nos amigos da TV Mackenzie, nos trabalhos, nas satisfações, etc... não deu muito mais que um minuto e a senhora ao meu lado tornou a puxar assunto:

– Dezembro é bonito, né? – diz ela admirando os arranha-céus enfeitados para o natal.

Para mim, ela estava tão reflexiva quanto eu, mas queria conversar. E continuou...

– Todo mundo enfeita tudo, põe luz piscando, papai noel, é a coisa mais linda. Pena que tem tanta violência, gente matando, gente roubando...
– Mas a gente não pode se deixar contaminar por isso, tem que continuar lutando – arrisquei-me a filosofar com ela – se tem gente matando e roubando, tem mais gente fazendo coisas boas por aí.
– Ah, é! Eu falo isso pra minha filha.

Resolvi, então, mudar o assunto:

– A senhora está voltando do trabalho?
– Estou. Trabalho ali na Consolação.
– De férias já?
– Não, ainda não. Só saio dia 9 – com cara de quem não queria ter lembrado disso.
– Mas a senhora tem folga no natal?
– Tenho um dia, aí eu vou pra Franca passar na casa da minha tia – diz ela, ainda olhando os prédios – Olha esse, que lindo! – emendou apontando para outro prédio decorado.

Ela queria mesmo era falar do natal. Pois bem:

– A senhora já passou aqui à noite?
– Não. Onde eu moro é muito longe – conta ela lamentando. Depois ela me disse que o longe é em Diadema.

Pedi a ela que me deixasse tirar uma foto, pois ia colocá-la em meu blog. Ela hesitou um pouco, mas deixou depois que a expliquei o que é um blog. Tirei o celular do bolso e, na hora da foto, descobri que estava sem bateria.

– E agora? – perguntou ela, de certo querendo saber como ia fazer para colocá-la no blog.
– Vou confiar na minha memória. Aí descrevo a senhora para quem for ler – disse eu tentando consertar – Chegando em casa já escrevo.
– Ah, tá! Então me põe bonitona lá – disse ela às gargalhadas, a primeira naqueles minutos de ônibus.
– Pode deixar – disse eu – Como é o nome da senhora?
– Silândia.
– Dona Silândia, eu desço no próximo ponto. Feliz natal pra senhora.
– Vai com Deus, meu filho, que Deus te abençoe...



Escrito por Victor Ferreira às 12h51
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


SÉ ÀS SEIS

Já que no último post, publicado ontem, falei dos altos preços praticados pelo transporte público paulistano, hoje trago um vídeo feito com uma câmera fotográfica na estação Sé do metrô de São Paulo. Já faz algum tempo. Eu estava (tentando!) voltando para casa entre 18 e 19 horas de um dia de semana qualquer. Com poucos trens, a linha azul não deu conta da quantidade de pessoas que chegavam da linha vermelha para fazer baldeação e a plataforma de embarque ficou lotada a ponto de não caber mais gente. Os passageiros que iniciaram a descida pela escada rolante sem saber do sarapatel que acontecia embaixo passaram por uma situação no mínimo constrangedora.



Escrito por Victor Ferreira às 10h29
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O PREÇO QUE (NÃO) SE PAGA

Andar por São Paulo com uma câmera na mão é um desafio interessante. Em cada esquina há um flagrante. A foto abaixo, feita com um celular pela amiga Karina Ribeiro, é um desses momentos únicos que nos provocam alguma reflexão.


Quanto vale o risco? Jovens se penduram na traseira do ônibus para não pagar passagem

Quando vi a cena, na subida da Rua da Consolação, já sabia que isso renderia alguma coisa para o blog. Ainda não sabia o quê. A foto veio tremida sem intenção, mas é exatamente esse ruído que transmite a sensação do risco que jovens como esses correm para burlar o preço de uma passagem de ônibus na capital paulista: R$2,30.

Depois que recebi a foto por e-mail, fiquei alguns minutos olhando e pensando. Poderia escrever sobre a situação em que vivem milhares de garotos moradores de rua em São Paulo. Mas nada me garante que aqueles dois, que desciam no ponto da Avenida Paulista, vivam essa realidade. Outra opção era fazer um texto “meio intelectual, meio de esquerda”, interpretando cada borrão da fotografia e os relacionando com as mazelas da sociedade. Sem chances.

Lembrei-me, então, de conversas com alguns taxistas que resmungavam por não ter sido aprovada a “caixinha de natal” da classe: rodar o dia todo em bandeira dois durante o mês de dezembro. Apenas um concordou comigo quando argumentei que São Paulo é uma das cidades onde mais se gasta para se locomover.

Atualmente, os paulistanos pagam R$2,30 por uma passagem de ônibus e R$2,40 por um bilhete de metrô. Em Belo Horizonte paga-se R$2,10 pela passagem mais cara, mas, em vilas e favelas, andar em um microônibus chega a custar R$0,50. O bilhete unitário do metrô mineiro custa R$1,80. No Rio, só o metrô é mais caro que o de São Paulo: R$2,60. A chamada tarifa única, cobrada nas linhas de ônibus sem ar-condicionado, passaram de R$2,10 para R$2,20 no início deste mês.

Comparadas com o que pagam nossos hermanos argentinos, nossas tarifas são exorbitantes. E não só as de São Paulo. Os chamados “colectivos” portenhos não passam de 1,60 peso – pouco mais de um real – e o bilhete unitário do metrô argentino, os “subtes”, custa 1,90 peso – equivalente a R$1,31 na cotação de hoje.

Todos esses números não fazem sentido se estiverem soltos aqui. Mas para alguém que toma dois ônibus – ida e volta – por dia faz: 115 reais por um mês de 25 dias de trabalho. Se a você parecer pouco, compare com o salário mínimo...



Escrito por Victor Ferreira às 17h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


OS INFLUENTES DE 2008

Há alguns dias a revista Época publicou uma edição com os brasileiros mais influentes do ano. A exemplo da semanal, outras revistas também publicaram sua lista de pessoas que "fizeram e aconteceram" em 2008. Em uma conversa aqui e outra li, sempre há quem ache que faltou alguém. Para mim, esse alguém é o nadador paraolímpico Daniel Dias, que recebe hoje, no Teatro MAM do Rio de Janeiro, o prêmio Brasil Olímpico 2008 na categoria de Melhores Atletas Paraolímpicos de 2008.


Daniel Dias comemora medalha no Parapan do Rio.

Embora já tivesse batido recordes e conquistado quatro medalhas - duas de ouro - no campeonato mundial de 2006, Daniel Dias surpreendeu o país nos últimos Jogos Parapan-americanos, no Rio de Janeiro, de onde saiu com oito medalhas de ouro. Em Pequim, durante as Paraolimpíadas, Daniel se consagrou: foram nove medalhas - quatro de ouro, quatro de prata e uma de bronze. A título de comparação: Clodoaldo Silva, considerado o maior atleta paraolímpico brasileiro, conquistou sete, nos Jogos Paraolímpicos de Atenas, em 2004. Considerando todas as medalhas paraolímpicas, Clodoaldo ainda é o maior medalhista brasileiro, mas, com apenas 20 anos, Daniel tem muito que conquistar nos próximos Jogos.

Cresci na mesma cidade que Daniel - Camanducaia (MG) - e conheci um pouco de sua história, o que me faz ainda mais seu fã. A determinação e a garra, presentes desde a infância em Camanducaia, é que trouxeram Daniel até aqui.

Se o post é sobre influência, a de Daniel ultrapassa os limites do esporte. O nadador assume um papel ainda mais importante: o de militante pelos direitos dos deficientes físicos. Durante a 4ª Semana de Valorização da Pessoa com Deficiência, o atleta participou de audiência pública no Senado Federal e pediu aos senadores mais atenção ao paraesporte.

Se as revistas não incluíram Daniel Dias entre os mais influentes, o desempenho do atleta, tanto nas piscinas quanto em palestras e debates, mostrará que esse brasileiro fez história em 2008.



Escrito por Victor Ferreira às 12h54
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Quem é Victor?
Victor Ferreira é estudante de Jornalismo e mora em São Paulo. Saiba +

Histórico


Votação
Dê uma nota para
Artigo Definido



Victor recomenda
 TV Mackenzie
 Oboré
 Repórter do Futuro
 Blog Às Claras
 Blog da Yara Achôa
 Meus vídeos no Youtube